26/02/2010

Os estúpidos

Pela pura razão, o futebol é comum.
Num gramado marcado com cal, dois grupos de 11 homens trombam pés para ultrapassar a bola de couro num retângulo.
Estúpido.
Porém, o futebol transcende a lógica.
Invade universos mágicos.

Genes primitivos nos tornaram seres capazes de viver e morrer por nossos instintos.
Nos fazem lutar para vencer com nossos grupos, nossos companheiros, nossos exércitos, nossos soldados.

Séculos passaram.
Golpes sangrentos foram substituídos por chutes plásticos.
Ao invés de cabeças decapitadas, cabeças baixas.
Na maioria das vezes os fracassados têm uma segunda chance.
As ironias contemplam as fábulas do futebol.

Arte.
Boleiros nos apresentam truques com imprevisíveis e sinuosos gestos.
Abençoados da grama, em improvisados passos, irritam, intrigam, encantam.
Um gol causa as mais estranhas e inexplicáveis sensações humanas.
O gol errado, uma flechada de veneno no peito.
A bola que precisa entrar e escapa, outra flecha.
A fúria do erro, o lamento do quase.
O gol certo, um gozo.
Olhos e corações lacrimejam.
Grita torcedor.
Quando a bola escorrega pela rede, algo estranho se libera.
Sobrenaturais delírios são provocados.
Raro privilégio, restrito a dois: você e goleador.
Eis o ápice do balé.

O estúpido esporte da esfera no retângulo, quando criado, não dimensionava a paixão sincera universal em que se transformaria.
O futebol parou guerras, intensificou orgulhos, uniu nações.
De chuteiras e número nas costas, nossos heróis nos trazem alívios e pautas para sarros.

Futebol confunde-se com a loucura.
Perdoa-me os intelectuais, mas futebol não é esporte.

1 comentários:

Luana Gabriela disse...

Henrique! Quanto tempo... como estás?

Obrigada pelo seu comentário lá no blog... vindo de você - inteligente como é, antenado nas coisas do undo cultural e jornalístico - é uma honra.

Voltarei aqui mais vezes também.

Futebol não é esporta, é arte. Ano passado não consegui comemorar o centenário do Coritiba, e este ano será que terei motivos pra comemorar o do Corinthians? Veremos.

Bjos